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Teorias são periodicamente substituídas (Parte 2)

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Nesta segunda parte do texto, especificamente, entraremos no tema abordado no título do artigo. A seguir, apresentarei a visão de alguns filósofos da ciência que defendem a substituição de teoria inteiras, ou paradigmas, a fim de que haja efetivamente o progresso da ciência e mostraremos um caso interessante de uma teoria substituída e registrada na história da ciência. Em seguida, analisaremos a luz de comentários de cientistas e filósofos da ciência, o estágio em que se encontra o neodarwinismo e os sinais de tendências a respeito dessa teoria.

Teorias podem ser substituídas?

Não só podem como devem ser substituídas, de acordo com o filósofo da ciência estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996). Seu trabalho relacionado, principalmente, ao processo de substituição de uma teoria ou um paradigma por outro incidiu sobre a história da ciência e a filosofia da ciência, tornando-se um marco no estudo do processo que leva ao progresso científico. Esse processo de substituição de teorias é explicado em seu livro The Structure of Scientific Revolutions .[1]

Kuhn reconhecia que os fatos se acumulam frequentemente um sobre o outro, mas, de acordo com ele, a ciência, realmente, faz um grande salto de progresso quando uma teoria é inteiramente substituída por outra em uma revolução científica e a ciência passa a trabalhar dentro daquele novo paradigma.[2]

Muitos livros didáticos nos contam quem e quando foram descobertas as novidades científicas, mas deixam de nos contar muito a respeito do processo de descoberta. Podemos tomar como exemplo o processo de transição do conhecimento entre a teoria do flogístico e a teoria da combustão.

Para Kuhn, precisamos avaliar uma teoria antiga (no caso, a teoria do flogístico) à luz dos fatos e conceitos conhecidos em sua época, não em comparação com a nossa ciência atual.[1] A teoria do flogístico foi desenvolvida pelo químico e médico alemão Georg Ernst Stahl entre 1660 e 1734.

De acordo com essa teoria, tudo tem ou o calórico ou o flogístico (um tipo de matéria), um dos quais se perde quando a substância queima.[2] Se for um metal que queima, ele perderia o flogístico (que teria uma massa negativa) e, portanto, ficaria pesado. O calórico, por outro lado, teria uma massa positiva; por isso, sob esta perspectiva, substância que se desintegram e perdem massa quando queimadas, tais como papel ou madeira, perderiam o calórico em vez do flogístico.

Outro velho conceito relacionava-se às substâncias ácidas que eram entendidas, pelos cientistas do passado, como moléculas que tinham pequenos ganchos sobre elas, enquanto que as bases tinham pequenos buracos. Diziam, portanto, que ambos tinham sabor desagradável porque os ganchos picavam as papilas gustativas e os buracos tinham arestas ásperas que as arranhavam. Quando ácidos e bases eram associados, os ganchos entravam nos buracos, neutralizando um ao outro. Isso fazia parte da teoria química com a qual Joseph Priestley e Antoine Lavoisier trabalhavam no século XVIII.

Eles não conheciam nossa tabela periódica dos elementos nem as reações de oxidação. Quando Pristley coletou aquele novo tipo de gás (oxigênio), chamou-o de ar sem a sua quantidade normal de flogístico. Lavoisier fez os mesmos experimentos e disse que a nova substância era um princípio atômico de acidez e formava um gás somente quando esse princípio tinha se unido ao calórico. É claro que isso nada se parece com aquilo que aprendemos numa aula de química hoje, né? Priestley jamais compreendeu o que tinha descoberto. Ele não sabia que tinha descoberto um novo gás chamado oxigênio e nunca aceitou a teoria da combustão com oxigênio.

Lavoisier, por outro lado, abordou esse experimento a partir de uma cosmovisão diferente. Ele estava pronto para questionar as próprias bases da teoria química. Estava convencido de que a queima de objetos absorvia alguma coisa da atmosfera. Ele não descobriu apenas um novo fato, ajustando-o dentro de uma teoria existente; mais do que isso, sua descoberta levou ao desenvolvimento da teoria da combustão com oxigênio, uma nova teoria que levou à reformulação da química e derrubou a teoria do flogístico.

Sobre isso, o paleontólogo Dr. Leonard Brand, diretor do departamento de ciências naturais da Universidade de Loma Linda, nos explica que

“Um texto de química, escrito por Linus Pauling (1964), relata que Lavoisier propôs uma nova teoria da combustão, sugerindo que, naquela época, ocorreram mudanças reais no pensamento. Essa é toda a história que conseguimos obter nos livros-texto de ciências. Eles presumem, geralmente, que os cientistas de outrora pensavam como nós, e que algumas velhas idéias que alguns desses cientistas ajudaram a substituir eram apenas superstição e não, realmente ciência. Contudo, essa visão parece não funcionar. As velhas maneiras de pensar não podem ser sempre chamadas de superstição ou mitos. Um estudo mais cuidadoso revela que aqueles cientistas de antigamente estavam, frequentemente, usando métodos de pesquisa semelhantes aos que usamos hoje. […] Teorias obsoletas não eram necessariamente não-científicas. Elas foram, simplesmente, substituídas por outras teorias científicas.”.[2: p.48]

Portanto podemos tirar como exemplo dessa situação que, uma teoria que é aceita em uma determinada época tem muito a ver com o pensamento “científico” da sociedade que influenciou aquela geração e com a experiência e a cosmovisão de seus pesquisadores. Nesse caso, em particular, vemos que o progresso não ocorreu pela adição de um fato sobre o outro; mas, sim, aconteceu quando um paradigma inteiro foi substituído por outro.

Observando o problema pelos olhos dos pioneiros da ciência e à luz da experiência dos últimos séculos, notamos em retrospecto que nenhuma das teorias que precisaram ser substituídas encaixava-se nos critérios dos pioneiros. A rigor, eram estruturas conceituais essencialmente qualitativas sem a estrutura formal que uma teoria científica precisa ter para merecer esse nome. Por outro lado, as teorias que obedeciam a esses critérios permanecem válidas dentro de seus limites até hoje. Elas funcionam e isso não muda com o tempo.

Agora, quando colocamos a teoria sintética da evolução (também chamada de neodarwinismo) sob as lentes do microscópio, será que realmente entendemos que ela se encaixa dentro do conceito de paradigma, que veio pra ficar, ou ela está a passos de servir apenas como um plano de fundo (como a teoria do flogístico) para um novo processo de revolução científica para a próxima geração de pensadores que está surgindo?

O neodarwinismo é científico?

Para Karl Popper (1902-1994), filósofo da ciência austríaco e professor emérito de Filosofia da Universidade de Londres, pai da falseabilidade e do racionalismo crítico, o progresso científico se dá a partir do momento em que aprendemos com os nossos erros de forma sistemática.

Segundo Popper, um cientista deve desenvolver uma teoria, testar essa teoria e a sustentar, se puder. Alguém que discordar, criticará os seus resultados e a sua lógica. É essa crítica que contribuirá para a objetividade na ciência. Diante de todo esse exposto acerca da importância de uma teoria para a ciência, ele faz uma afirmação contundente:

“Tenho chegado à conclusão de que o darwinismo não é uma teoria científica testável, mas um programa de pesquisa metafísico, um possível plano de referência para teorias científicas testáveis”.[3: p.168].

Em outras palavras, o que Popper quis dizer é que o neodarwinismo, no contexto da origem da vida, não é científico, porque não é falsificável (testável). Embora tenha sido forçado a se retratar após essa afirmação – devido à forte pressão da comunidade científica −, Popper realmente não se arrependeu do que afirmara [4, 5].

Nesse contexto, o filósofo da ciência Dr. Del Ratzsch, em seu livro The Battle of Beginnings, afirma que certas teorias não baseadas na verdadeira ciência

“não podem ser geradas por meios puramente lógicos ou puramente mecânicos a partir de dados empíricos”, mas são “resultado de criatividade e invenção”. Para ele, “cientistas frequentemente continuam a defender firmemente certas teorias mesmo diante de clara evidência contrária.”

Por sua vez, e como vimos no artigo anterior, o biólogo evolucionista germano-americano Ernst Mayr (1904–2005) escreveu sobre a filosofia da biologia, como por exemplo:

Nenhum princípio da biologia histórica jamais poderá ser reduzido às leis da física ou da química [se referindo à hipótese da evolução química da vida, ‘Mundo RNA’].[6: p.79]

 Ele afirmou que existem componentes filosóficos dentro da Biologia, e dividiu este campo em dois ramos fundamentais que não deveriam ser confundidos: um pertence à biologia funcional (situa-se no campo do naturalismo metodológico) e o outro se refere à biologia histórica/evolutiva (ou naturalismo filosófico).[7] Enquanto que na biologia funcional a experimentação científica é frequentemente utilizada, a biologia evolutiva é caracterizada por cenários imaginários, narrativas hipotéticas sobre a origem da vida onde a experimentação não ocorre.[6]

Ainda sobre a origem da vida no contexto da bioquímica, Franklin Harold, um dos principais microbiologistas evolucionistas do mundo admitiu a contragosto que,

“não existe atualmente qualquer relato darwiniano detalhado da evolução de qualquer sistema bioquímico ou celular, apenas uma série de especulações fantasiosas”.[8: p.205].

Mas, e em relação à cientificidade do neodarwinismo acerca da origem da vida no registro fóssil? Em 1969, Gareth Nelson, um especialista em fósseis do Museu Americano de História Natural de Nova York, escreveu:

“A ideia que alguém possa ir ao registro fóssil e esperar recuperar empiricamente uma sequência ancestral-descendente, seja de espécies, gênero, famílias, ou seja o que for, tem sido, e continua sendo, uma ilusão perniciosa.”[9]

Henry Gee, editor sênior da revista Nature, escreveu em 1999 que:

“Pegar uma série de fósseis e afirmar que ela representa uma linhagem não é uma hipótese científica que possa ser testada, mas uma afirmativa que carrega a mesma validade de uma história para dormir – entretém, talvez até seja instrutiva, mas não é científica.”[10: p.116-117]

Para concluir este tópico, faço minhas as palavras do zoólogo Dr. Ariel Roth, ex-professor Adjunto dos departamentos de Ciências Biológicas e de Geologia da Universidade de Loma Linda (EUA):

“A teoria da evolução é um exemplo primário do domínio de um paradigma que tem perdurado mesmo quando a evidência para respaldá-lo é frequentemente difícil de encontrar. Em particular, essa persistência assinala que nem tudo está bem com a ciência. […] Como a ciência se meteu nesse quebra-cabeças de defender uma ideia com pouca sustentação e com tantos problemas científicos?”.[11: p.323]

Há indícios de que o neodarwinismo possa ser substituído?

No Brasil, desde 1998 o historiador da ciência Enézio Eugênio de Almeida Filho vem expondo a falência epistêmica da teoria da evolução de Darwin através da seleção natural junto às editorias de ciência e com alguns jornalistas científicos de renome. Para ele, essa mudança era um ruído óbvio, pois

“até Darwin, já em 1859 considerava a seleção natural um mecanismo muito importante, mas não o único mecanismo evolutivo”.[12]

Em 2014, conforme divulgou Enézio:

“a Nomenklatura científica já está elaborando uma nova teoria geral da evolução que, para desespero de Darwin e discípulos, não será selecionista, mas incorporará aspectos neo-lamarckistas – a Síntese Evolutiva Ampliada ou Estendida, que será lançada em 2020.”.[13, 14]

Pois bem, assim como Enézio previu, em 7-9 de novembro de 2016 a Royal Society (mais antiga sociedade científica do mundo) realizou um encontro em Londres intitulado New Trends in Evolutionary Biology: Biological, Philosophical and Social Science Perspectives para discutir a mudança paradigmática em evolução.[15] As reivindicações de revisão da teoria padrão feitas por algumas áreas relacionadas à biologia evolutiva foram analisadas e agora é esperar até 2020, ano que a Síntese Evolutiva Ampliada será anunciada.

Sabemos conforme anunciou Kevin Laland, biólogo evolutivo e um dos organizadores do encontro na Royal Society, que

“Uma questão em discussão foi se o núcleo explicativo da biologia evolutiva requer ou não atualizações à luz dos recentes avanços em evo-devo, epigenética, ecologia do ecossistema e em outros lugares.”.[16: p.316]

Enquanto isso permanece um enorme vácuo teórico na biologia evolutiva que, a propósito, continuará sendo ensinada nas salas de aula como se nada tivesse ocorrido.

Como Enézio bem resumiu, “essa reunião na Royal Society espelha a quantas anda em areias epistemológicas movediças a teoria evolucionária.” Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que demorou tanto tempo para essa admissão de mudança por parte da comunidade evolutiva? Talvez o motivo esteja ligado ao que o próprio biólogo evolutivo Kevin Laland lamentou uma vez que os cientistas evolucionistas autocensuram suas críticas ao neodarwinismo a fim de evitar a aparência de estar dando crédito científico à teoria do Design Inteligente:

“A mera menção da síntese evolucionária estendida geralmente evoca uma reação emocional, mesmo hostil, entre os biólogos evolutivos. Muitas vezes, as discussões vitais descem em acrimonia, com acusações de confusão ou deturpação. Talvez assombrados pelo espectro do design inteligente, os biólogos evolucionários desejam mostrar uma frente unida para aqueles hostis à ciência. Alguns podem temer que receberão menos financiamento e reconhecimento se intrusos – como fisiologistas ou biólogos do desenvolvimento – inundarem seu campo.”.[17]

Essa previsão do Enézio e toda a movimentação da Academia apenas confirmam os comentários do Dr. Leonard Brand acerca do tempo de vida das teorias:

“as teorias têm um período de vida. […] No decurso de toda a história da ciência, uma teoria média tem duração de 300 anos. Agora, durante os últimos cem anos, considerando que a ciência muda mais rapidamente, a duração será muito mais curta.”.[2: p.31]

Porventura é chegado, enfim, o tempo de vida do neodarwinismo? Aguardemos os últimos capítulos dessa história…

 Referências:

[1] Kuhn TS. The Structure of Scientific Revolutions. 2. Ed., Enlarged. Londres: The University of Chicago Press, 1970.

[2] Brand L. Fé, Razão e História da Terra. Tradução Haller Elinar Stach Schuneman, Eliseu Nevil Menegusso. São Paulo: UNASPRESS, 2005. 340p.

[3] Popper KR. Unended Quest: na intellectual autobiography. La Salle, IL: Open
Court Press; 1976.

[4] Popper KR. Unended Quest: na intellectual autobiography. La Salle, IL: Open Court Pub Co; 1982, Revised Edition.

[5] Horgan J. Dubitable Darwin? Why Some Smart, Nonreligious People Doubt the Theory of Evolution. Blog Scientific American, 2010. Disponível em: http://blogs.scientificamerican.com/cross-check/dubitable-darwin-why-some-smart-nonreligious-people-doubt-the-theory-of-evolution/

[6] Mayr E. What makes biology unique? Considerations on the Autonomy of a Scientific Discipline. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2004.

[7] Souza Junior NN. Filosofia das Origens: Uma Introdução à Controvérsia Criacionismo x Evolucionismo. Acta Científica. Ciências Humanas 2010; 2(19):9-22.

[8] Harold F. The Way of the cell. Nova York: Oxford University Press, 2001.

[9] Nelson GJ. Ontogeny, Phylogeny, Palaeontology and the Biogenetic Law.  Presentation to the American Museum of Natural History (1969). In: Williams DM, Ebach MC. The reform of palaeontology and the rise of biogeography – 25 years after ‘Ontogeny, phylogeny, palaeontology and the biogenetic law’ (Nelson, 1978). Journal of Biogeography 2004;31(5): 685-712.

[10] Gee H. In Search of Deep Time. New York: Free Press, 1999, p. 5, 32, 113-117.

[11] Roth A. Origens. Tradução: Azenito G. Brito. 2. Ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2016.

[12] Almeida Filho EE. Olha os 16 de Altenberg aí, gente! Desafiando a Nomenklatura científica, 2009. Disponível em: http://www.pos-darwinista.blogspot.com.br/2009/03/olha-os-16-de-altenberg-ai-gente.html

[13] Almeida Filho EE. Lamarck parcialmente correto, para desespero de Darwin. Deafiando a Nomenklatura Científica, 2014. Disponível em: http://pos-darwinista.blogspot.com.br/2014/05/lamarck-parcialmente-correto-para.html

[14] Mazur S. The Altenberg 16: An Exposé of the Evolution Industry. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2010.

[15] Mazur S. Royal Society Meeting to Discuss Evolution Paradigm Shift, What That Means for Science and for All. The HuffingtonPost (25 dez. 2015). Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/suzan-mazur/royal-society-meeting-to_b_8876462.html?utm_hp_ref=science&ir=Science

[16] Laland KN. Schism and Synthesis at the Royal Society. Trends in Ecology and Evolution 2017;32(5):316–317.

[17] Laland K, et al. Does evolutionary theory need a rethink? Nature. 2014;514(7521):161-4.

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Everton F. Alves
Cofundador e Editor-chefe da Origem em Revista. Mestre em Ciências (Imunogenética) e Pós-graduando em Biotecnologia (Biologia Molecular) pela UEM. Autor de dezenas de publicações científicas na área Biomédica. Autor do livro "Teoria do Design Inteligente: evidências científicas no campo das ciências biológicas e da saúde". Membro da Sociedade Brasileira do Design Inteligente. Membro fundador do Núcleo Maringaense da Sociedade Criacionista Brasileira (NUMAR-SCB).