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A confusão no uso dos termos evolução e evolucionismo

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Termo Evolução

Tenho percebido ao longo do tempo que é difícil remover o estigma da palavra ‘evolução’ na comunidade criacionista. Em nível popular, conforme o dicionário Houaiss da língua portuguesa, “’evolução’ é qualquer processo gradativo e progressivo de transformação, de mudança de estado ou condição”.

Porém, de acordo com a bióloga Gabriela Saldanha, diretora do departamento de extensão do Núcleo Maringaense da Sociedade Criacionista Brasileira (Numar-SCB),

“Muitos criacionistas não gostam de usar o termo ‘evolução’ em momento algum em suas falas ou textos para porventura não fazerem apologia à ‘Teoria da Evolução’ ou ‘Evolucionismo’ (esses sim, sinônimos). Porém, é muito importante que nós, criacionistas, nos tornemos irrepreensíveis, inclusive no uso correto de significados e da Língua Portuguesa, por exemplo, deixando de usar a palavra ‘Evolução’ como sinônimo de ‘Teoria da Evolução’. Devemos ser exemplos no uso correto dos termos e estar aptos a explicar e corrigir sempre seu mau uso.”

Para o biólogo e mestre em Biologia Animal Ebenézer Lobão Cruz:

“Há um erro que nós estudiosos do tema não podemos cometer, que é o de achar que o termo ‘evolução’ é sinônimo de ‘evolucionismo’, achar que tudo relacionado à ‘evolução’ está se referindo à Darwin ou às teorias neodarwinistas ou sintéticas. ’Evolucionismo’ é uma corrente filosófica cheia de erros e direcionamentos impróprios, enquanto ‘evolução’ é só um substantivo derivado do verbo evoluir e pode ser usado em diversos sentidos. Acredito na possibilidade de mudança, inclusive genética, dos seres. E isso é ‘evolução’, não há o que se discutir. Porém, acreditar nos ditames da teoria darwiniana como explicativa ao surgimento e desenvolvimento dos seres já é demais. Outro exemplo é o uso das palavras ‘adaptação’ e ‘evolução’, embora sejam palavras diferentes, elas não são divergentes. Quando há adaptação e essa adaptação não é apenas pontual, ela mantém-se como sendo uma modificação para a sobrevida de uma espécie no ambiente, isso é um processo evolutivo no verdadeiro sentido da palavra ‘evolução’. Portanto, eu posso estar falando sobre ‘evolução’ sem estar concordando com as idéias de Darwin.”

Sobre o uso da palavra evolução, há complicações porque as pessoas usam figuras de linguagem e significados mais específicos dependentes de contexto o tempo todo. Mesmo assim, é útil manter em mente que “evolução” é toda e qualquer alteração de qualquer coisa ao longo do tempo, ou mesmo a não-alteração.

Por exemplo, podemos perguntar: como evolui a constante cosmológica? Resposta: mantém-se constante. Isso é evolução. Uma armadilha em que muitos caem é confundir “evolução” com melhoria. O conceito de “melhoria” não faz sentido na maioria dos casos em que se pode usar o termo evolução, mesmo em Biologia. Outro erro é confundir “evolução” com a proposta neodarwiniana. Na verdade, o que o neodarwinismo faz é apresentar uma ideia sobre como deve ter sido a evolução. O modelo criacionista tem outra proposta sobre como a evolução deve ter ocorrido (ex.: Deus formando a Terra e criando seres vivos em uma semana, diversificação posterior, dilúvio – tudo isso é evolução a rigor).

Árvore de evolução típica para mamíferos em um livro escolar.
Price, Biological Evolution, 1996 p. 127

Em relação à semântica, o termo “evolução” apresenta uma carga positiva de “melhoria”, desenvolvimento, apesar de tecnicamente tal conotação ser inadequada. Em algumas áreas de estudo no meio acadêmico quase não se faz distinção entre “evolução” e “evolucionismo”. Em Biologia e correlatos, existe uma tendência a usar a palavra ‘evolução’ como abreviatura de ‘evolução das espécies segundo princípios darwinianos’, mas isso é uma figura de linguagem. Em Física, por exemplo, é comum encontrarmos exercícios do tipo: calcule a evolução do seguinte sistema…

A fim de ilustrar o uso correto do termo evolução, podemos, por exemplo, dizer: “Maria evoluiu para pior”. Esta é uma forma correta de usar esse verbo. Quando dizemos “o caso de Maria evoluiu” queremos dizer que há novidades, nada mais. Essa novidade pode ser em relação a ganhos ou perdas. Poderíamos, por exemplo, completar a frase assim: “O caso de Maria evoluiu: ela reagiu bem ao tratamento e está bem melhor.”. Ou: “O caso de Maria evoluiu: houve complicações e ela morreu.”.

Outro ponto importante é, embora haja setores que prefiram usar a palavra “evolução” com uma conotação de melhoria, essa conotação não se aplica à grande maioria dos casos em que a palavra “evolução” é usada como termo técnico até porque o conceito de ‘melhoria’ é aplicável apenas em um conjunto muito restrito de situações, isto é, são raras, por exemplo, em Biologia, as mutações de fato benéficas.

É importante lembrar que sempre tende a haver uma tensão entre termos técnicos e usos populares das palavras. No caso específico da palavra ‘evolução’, é importante distinguir o termo técnico do uso popular. Criacionistas têm sido bastante criticados por confundir o termo técnico ‘evolução’ com o sentido popular de ‘melhoria’. E os evolucionistas têm razão nesse caso, pois o termo técnico realmente não dá essa conotação nos livros técnicos. Isso porque nem na visão darwiniana as coisas sempre evoluem para melhor. Evolução que causa prejuízos a uma espécie acontece com mais frequência no modelo darwiniano do que os movimentos evolutivos que causam “melhorias”. Se o prejuízo de um processo evolutivo for grande, o ramo que passou por isso tende a ser eliminado.

Em suma, nós criacionistas podemos discordar dos darwinistas em relação à forma COMO ocorreu a evolução, mas não SE ocorreu evolução. Evolução é fato, mas a historinha darwiniana é conjectura. Deus intervindo especialmente na formação deste mundo e criando seres vivos é algo que faz parte da evolução da vida na Terra, segundo a visão criacionista. Tudo o que aconteceu depois da criação também.

Eduardo Lütz é Astrofísico e Editor Associado da Origem em Revista.

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Eduardo Lütz
Eduardo Lütz reside no Rio Grande do Sul, é cristão protestante e tem atuado na área de Astrofísica, desenvolvendo métodos para lidar com Teoria Quântica de Campos em presença de campos gravitacionais intensos, desenvolvendo modelos matemáticos nessa e em muitas outras áreas. Efetuou Pesquisas em Física Hipernuclear (com híperons) na Universidade Friedrich-Alexander (Alemanha). Ele tem discutido com formadores de opinião, escrito e revisado artigos, participado em livros, fornecido entrevistas e feito muitas palestras sobre diversos temas de interesse nessa área por todo o Brasil. Também é engenheiro de software para a Hewlett-Packard (HP), desenvolvendo tecnologias em Informática há décadas. Principais qualificações: 1. Mestre em Astrofísica Nuclear pela UFRGS 2. Bacharel em Física pela UFRGS